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Ursopedia

Reprodução dos ursos

As crias de urso nascem cegas, indefesas e com pouco mais do que uma camada fina de pelo. É o começo mais frágil de toda a família dos carnívoros — e explica por que razão a recuperação de uma população de ursos é sempre lenta, mesmo quando as condições melhoram.

Ursa-parda com a sua cria na tundra do Alasca
Dois anos e meio juntas, e durante esse tempo a fêmea não se reproduz. Cada ninhada custa-lhe metade de uma década reprodutiva. Foto: OrnaW / Pixabay

A gestação não é o que parece

A gestação de um urso dura entre seis e nove meses, mas esse número engana: quase todo esse tempo é de espera. O óvulo fecundado divide-se e fica a flutuar livremente no útero durante meses, sem se fixar. Só no início do sono invernal se implanta na parede uterina — e é aí que o desenvolvimento arranca de verdade.

Chama-se implantação diferida, e o desenvolvimento real que se segue é curtíssimo. Na ursa-parda as crias nascem oito semanas depois de o embrião se fixar. No urso polar a gestação aparente é de sete a nove meses, mas a gravidez verdadeira dura cerca de dois.

Uma gravidez que se cancela sozinha

É aqui que está o mecanismo mais notável da reprodução dos ursos, e não é uma curiosidade: é o que liga a reprodução ao alimento.

Se a fêmea não engordar o suficiente para atravessar o inverno grávida, o embrião simplesmente não se implanta e é reabsorvido pelo corpo. A gestação termina antes de começar.

Visto assim, o acasalamento da primavera não é uma decisão: é uma opção que fica em aberto. Quem decide é o outono. Um ano mau de bolota, de salmão ou de bagas não se traduz em crias fracas — traduz-se em nenhuma cria, e a fêmea chega à primavera seguinte inteira, em condições de tentar outra vez. Para um animal que investe dois ou três anos em cada ninhada, adiar sai muito mais barato do que falhar.

Nascem minúsculas

Oito semanas de desenvolvimento real dão o que dão. Uma cria de urso-pardo nasce com 350 a 510 g; uma de urso preto americano, com 280 a 450 g; uma de urso-de-óculos, com 300 a 330 g. São animais de bolso saídos de mães que pesam entre 100 e 500 quilos.

O panda gigante leva o caso ao extremo: nasce com 90 a 130 gramas — cerca de 1/800 do peso da mãe, a cria proporcionalmente mais pequena de qualquer mamífero placentário. Nasce rosada, cega e sem dentes, e só começa a gatinhar aos 75 a 80 dias. Ao fim de um ano pesa 45 quilos: multiplicou o seu peso por mais de trezentas vezes.

Nascem durante a hibernação

Nas espécies do norte, as fêmeas dão à luz dentro da toca, a meio do sono invernal, e despertam para isso. É a única interrupção de um período em que, de resto, não comem, não bebem nem defecam. A ursa amamenta durante semanas sem ingerir nada: o leite sai das suas próprias reservas.

Nem todas seguem esse calendário. O urso-de-óculos não pare durante a hibernação — nem sequer hiberna: os acasalamentos concentram-se entre Abril e Junho, no início da estação húmida, e os nascimentos dão-se na estação seca, entre Dezembro e Fevereiro.

Quantas crias

Até seis por ninhada em casos excecionais, mas uma a três é o normal e duas é o mais frequente em quase todas as espécies.

O panda gigante é um caso à parte e duro: tem gémeos em cerca de metade das gestações, mas não consegue criar os dois. Na natureza, a mãe escolhe o mais forte, e o outro morre à fome. Não é um acidente nem um descuido: com 90 gramas à nascença e uma dieta de bambu que mal cobre o gasto de um adulto, criar dois não é uma opção que exista.

Quanto tempo ficam com a mãe

Muito mais do que a maioria dos mamíferos do seu tamanho. E a diferença entre espécies é grande: uma cria de urso malaio passa com a mãe o triplo do tempo que uma de urso-de-óculos.

Quanto tempo a cria fica com a mãe

Durante esse tempo a fêmea não volta a reproduzir-se. É a razão de fundo por que uma população de ursos recupera tão devagar.

No urso-pardo a média são dois anos e meio, mas o intervalo real vai de ano e meio a quatro anos e meio, conforme o alimento disponível e a região.

As crias do beiçudo viajam às costas

É o comportamento mais peculiar da família. As crias de urso-beiçudo viajam agarradas às costas da mãe — quando ela anda, quando corre e quando trepa às árvores — até atingirem cerca de um terço do seu tamanho.

Não é ternura: é a única defesa que lhe resta. A maioria dos ursos põe as crias a salvo mandando-as trepar a uma árvore. O beiçudo não pode: partilha a floresta indiana com o leopardo, que trepa atrás delas. Por isso a mãe não as manda para cima — leva-as ela, às costas, e é esse o seu principal mecanismo de defesa contra os predadores. O tigre-de-bengala também caça beiçudos, à espera junto aos termiteiros.

Cria de urso agarrada a um tronco de árvore
A saída de emergência da maioria das crias de urso: para cima. Trepam antes de saberem correr — e a mãe fica em baixo, entre a árvore e o perigo. Foto: 12019 / Pixabay

Porque a recuperação é sempre lenta

Junte-se tudo: uma ninhada de uma ou duas crias, um nascimento que só acontece se o outono correu bem, crias que nascem indefesas e dois a três anos de dependência durante os quais a fêmea não volta a reproduzir-se.

A conta é implacável. Uma fêmea de urso tem poucas ninhadas em toda a vida — e ainda menos crias que cheguem à idade adulta, porque o primeiro ano é o que mais mata. Não é um animal que possa repor perdas depressa.

É a razão de fundo por que uma população de ursos leva décadas a recuperar, e por que a caça furtiva de uma única fêmea reprodutora custa muito mais do que um animal. A população cantábrica, em Espanha, cresce a cerca de 10 % ao ano — e considera-se uma recuperação rápida. É essa lentidão que explica por que razão Portugal continua sem ursos 180 anos depois. Seis das oito espécies estão classificadas como vulneráveis pela UICN.