Os ursos são os mais solitários de todos os carnívoros. Não é uma impressão: são considerados a família mais associal da ordem Carnivora. Encontram-se em grupo apenas em duas situações — uma mãe com as crias, ou vários animais atraídos por uma fonte de comida abundante e temporária, como um rio cheio de salmão.
Onde vivem e onde não
Existem oito espécies vivas, repartidas por três continentes. Não há ursos em África, na Austrália nem na Antártida. A Ásia é o continente com mais espécies — seis das oito — e a América do Sul tem apenas uma, o urso-de-óculos.
Fora isso, ocupam praticamente todos os climas: do gelo do Ártico às florestas tropicais do Bornéu e aos páramos andinos acima dos 4.000 metros.
Nem todos hibernam
É a pergunta mais comum sobre os ursos, e a resposta não é sim nem não: hibernam dois dos oito, dois dependem de onde vivem, e quatro não hibernam de todo.
- Urso PardoSimEm toca escavada, em grutas, fendas, raízes cavernosas ou troncos ocos
- Urso preto americanoSimHiberna em toda a sua área de distribuição
- Urso polarDependeOs adultos não hibernam; só as fêmeas gestantes se recolhem em tocas de neve
- Urso preto asiáticoDependeHiberna no Extremo Oriente russo e no norte do Japão; não no sul tropical
- Urso Panda GiganteNãoDesloca-se para altitudes mais quentes em vez de entrar em dormência
- Urso-beiçudoNãoVive onde há comida o ano inteiro
- Urso MalaioNãoNo seu território há alimento todo o ano; nunca precisou
- Urso de ÓculosNãoAs crias nascem numa toca, mas a fêmea não hiberna
A hibernação é uma adaptação à falta de comida no Inverno, não ao frio em si. Onde há alimento o ano inteiro — trópicos, sobretudo — nenhum urso hiberna.
O caso do urso polar costuma surpreender. Vive no sítio mais frio de todos e não hiberna: os adultos caçam durante o Inverno, que é justamente quando há mais gelo e melhor acesso às focas. Só as fêmeas gestantes se recolhem para parir.
E o urso preto asiático mostra que não é uma característica da espécie mas do lugar: hiberna no Extremo Oriente russo e no norte do Japão, e no sul tropical da sua área não hiberna.
O que acontece durante a hibernação

Não é um sono profundo qualquer. Durante a hibernação, a temperatura corporal baixa entre 4 e 7 °C e o ritmo cardíaco desce dos 55 batimentos por minuto habituais até apenas 9.
Normalmente não acordam. Passam o período inteiro sem comer, sem beber, sem urinar e sem defecar: forma-se um tampão fecal que só é expelido ao acordar, e as necessidades de proteína cobrem-se reciclando a ureia dos próprios resíduos.
A única interrupção é o parto: as fêmeas dão à luz durante a hibernação e despertam para isso.
Como comunicam
Têm um repertório vocal amplo, e cada som corresponde a um estado:
- Amistoso: estalidos de língua, grunhidos e bufos suaves.
- Tensão: gemidos, resfolegar, fungar ou soprar.
- Alarme: ladridos.
- Confronto: bater de dentes, bramidos, rosnados, rugidos e sons pulsantes.
- Crias em apuros: guinchos, choros, balidos e gritos.
Comunicam também com o corpo. Erguer-se sobre as patas traseiras exagera o tamanho do animal — não é necessariamente um sinal de ataque, é uma mensagem sobre a sua dimensão. As manchas do peito, o olhar fixo e a expressão facial transmitem dominância ou submissão.
E marcam o território com cheiro: urinam em árvores ou esfregam-se nelas, muitas vezes acompanhando com arranhões e dentadas no tronco.
Quanto vivem
Entre 18 e 30 anos na natureza, conforme a espécie — e bastante mais em cativeiro, onde não há fome, predadores nem invernos maus.
- Urso polarAté 30 anos
- Urso PardoCerca de 25 anos
- Urso preto asiático25 anos em médiaem cativeiro: 44 anos
- Urso de Óculos20 anos ou maisem cativeiro: 37 anos e 11 meses
- Urso preto americano18 anos em médiaem cativeiro: 44 anos; o mais velho em liberdade tinha 39
Sem estimativa fiável na natureza: Urso Panda Gigante (em cativeiro: 38 anos, o mais velho conhecido) · Urso-beiçudo · Urso Malaio (em cativeiro: Mais de 20 anos; um exemplar chegou aos 34).
As fontes de divulgação dão números para estas três, mas contradizem-se entre si — no panda vão de «15 a 20» a «20 a 30» anos. Preferimos dizer que não se sabe a escolher um.
A diferença entre a natureza e o cativeiro é a maior parte da história. Um urso preto americano vive 18 anos em média em liberdade, mas o mais velho registado em cativeiro chegou aos 44 — mais do dobro. E houve um selvagem que chegou aos 39, o que mostra que o limite biológico está muito acima da média.
O que encurta a vida de um urso não é a idade: é o primeiro ano. As crias nascem cegas e indefesas e a mortalidade concentra-se aí. Quem chega a adulto tem boas probabilidades de viver duas décadas.
Quantas espécies estão ameaçadas, e porquê
Seis das oito espécies estão classificadas como vulneráveis pela União Internacional para a Conservação da Natureza. Nenhuma está em perigo crítico — mas isso é menos consolo do que parece, porque «vulnerável» já significa risco elevado de extinção na natureza.
A escala da Lista Vermelha da UICN
- LCPouco preocupante2 espécies
- NTQuase ameaçada—
- VUVulnerável6 espécies
- ENEm perigo—
- CRCriticamente em perigo—
- EWExtinta na natureza—
- EXExtinta—
Nenhuma das oito espécies de urso está em perigo crítico, extinta na natureza ou extinta.
As ameaças não são as mesmas
Agrupá-las todas em «perda de habitat» esconde o essencial, porque cada espécie enfrenta um problema diferente:
- Urso polar — a perda do gelo marinho. Sem gelo não há plataforma de caça, e mais meses em terra significam mais meses sem acesso a focas. É a única ameaça da lista que não se resolve com medidas locais.
- Urso-malaio — desflorestação por agricultura, exploração madeireira e incêndios, e ainda o comércio de bílis: mantêm-se explorações no Laos, no Vietname e em Myanmar.
- Urso-de-óculos — caça furtiva, expansão agrícola e mineração ilegal nos Andes.
- Urso-beiçudo — perda e degradação do habitat num dos territórios mais densamente povoados do planeta. Restam menos de 20.000.
- Panda gigante — é o caso com melhores notícias: cerca de 1.900 em liberdade, e a subir.
E as duas que não estão ameaçadas
O urso-pardo e o urso preto americano são de pouco preocupante à escala global, e isso deve-se às grandes populações da Rússia, do Alasca e do Canadá.
Mas «pouco preocupante» não quer dizer seguro em todo o lado. O urso-pardo já se extinguiu de países inteiros — Portugal entre eles, em 1843 — e vários núcleos europeus são pequenos e isolados. Uma espécie pode estar globalmente estável e ter desaparecido por completo do sítio onde vive quem está a ler isto.